Maduro faz reféns em solo venezuelano, e Brasil precisa subir o tom, diz María Corina

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MAYARA PAIXÃO
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS)

Sete meses após as eleições apontadas como fraudadas na Venezuela, a líder opositora María Corina Machado, que desde poucos dias após aquele 28 de julho reside em um local mantido sob sigilo, tem uma lista extensa de preocupações, mas uma é mais premente.

A liberação dos cinco líderes da campanha opositora que há quase um ano vivem asilados na embaixada argentina em Caracas, sob a tutela do Brasil, tornou-se prioridade. Ela pede que Brasília articule uma frente regional de países que eleve a pressão contra o ditador Nicolás Maduro pela libertação dos amigos que descreve como reféns.

“É evidente que é preciso colocar mais pressão”, diz em uma nova conversa com a reportagem por chamada de vídeo. “Estamos diante de uma situação de violação de todos os direitos humanos de cinco pessoas, que são objeto de uma tortura e que não sabemos até quando vão resistir. Maduro transformou aquela embaixada em uma prisão, e os asilados, em reféns. Já é um tema de vida ou morte.”

O gerador que fornecia eletricidade aos asilados após a rede elétrica da residência ser cortada colapsou.

O fornecimento de água é instável, e os alimentos na geladeira começam a apodrecer. Para recarregar seus celulares e assim se manterem comunicáveis, eles usam uma pequena placa de energia solar. Desde agosto, quando funcionários consulares argentinos foram expulsos do país, eles são os únicos na residência.

“Sou muito grata ao governo do Brasil por assumir a responsabilidade da embaixada, mas a verdade é que a situação da vida dos cinco neste momento é muito crítica”, diz María Corina.

“A pressão precisa envolver mais países, precisa ser uma exigência regional em unidade. E acredito que o Brasil pode perfeitamente liderar isso para que o regime entenda que esse clamor não é um tema ideológico ou essencialmente de direitos humanos, mas que está tendo uma atitude cruel e absurda e que pagará um custo por isso.”

Em Brasília, a resposta é que há um trabalho constante de insistência para que Caracas aceite dar salvo-condutos para que os asilados deixem o país. O governo Lula (PT) também já ofereceu mais de uma vez o envio de um avião para retirá-los da Venezuela.

A oposição majoritária venezuelana, para a qual a situação nunca foi fácil, encontra-se em uma nova encruzilhada. Por um lado, na arena doméstica, a ditadura não dá sinais de arrefecer e chamou eleições regionais para o dia 27 de agosto. María Corina decretou boicote.

Um aliado próximo da líder opositora, sob reserva, questiona como seria possível convocar a população a participar ignorando o que ele chama de um flagrante roubo do resultado da eleição presidencial. Soma-se ao contexto a fragilidade do grupo opositor após sete meses de perseguições e prisões. Há mais de 1.060 presos políticos na Venezuela.

Por outro lado, há ainda grande expectativa do que o governo de Donald Trump nos Estados Unidos poderia fazer. Questionada se houve frustração na alta cúpula opositora após Trump mandar um enviado seu a Caracas para conversar com Maduro, ela diz que não.

“Escutamos muitas coisas, e eu me apego ao que diz o presidente Trump. E há poucos dias ele disse que Maduro era um inimigo dos EUA e que teria sido um erro oxigená-lo”, afirma.

Para ela, há basicamente uma coisa que freia possíveis ações americanas contra a ditadura: o fato de que há presos americanos na Venezuela. Trump já conseguiu a liberação de seis deles. Faltam ao menos sete.

María Corina pede investimentos em dois caminhos. Primeiro, em processos judiciais contra os crimes e as atividades econômicas ilícitas da ditadura. Segundo, no fim das licenças para atuação de gigantes petroleiras no país, em especial a Chevron, outorgada durante o governo de Joe Biden em 2022.

“Seria temporário, até que reestabeleçamos a democracia. Não há ninguém mais interessado em transformar a Venezuela em um hub energético do que nós. Mas hoje todo o dinheiro que entra no país não vai para escolas, hospitais ou aposentadorias, vai para a estrutura repressiva, para uma campanha de propaganda de mentiras.”

“Nosso pedido de ajuda não significa que se requer intervenção de nenhum tipo, pelo amor de Deus”, frisa a líder opositora, como que em um alerta contra a ideia ventilada por alguns que se dizem aliados. Há cerca de um mês, o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe pediu uma “intervenção internacional na Venezuela, preferencialmente autorizada pela ONU”.

“Mas é fato que Maduro tirou a máscara e disse: ‘aqui não há eleições, nada me importa em quem as pessoas votam’. Lula lhe pediu que entregasse as atas. [Gustavo] Petro lhe pediu. [Gabriel] Boric lhe pediu. Todos os países disseram. Mas ele pensou: ‘Não quero, não entrego nada e sigo no poder à força’.”

Um primeiro ponto de desavença entre a liderança opositora e o governo Trump surgiu quando o republicano retirou a proteção temporária a centenas de milhares de imigrantes venezuelanos que vivem nos EUA. María Corina afirma que imigrantes criminosos, como descreve Trump, são apenas uma pequena fração do todo. E que, com exceção daqueles ligados a grupos como o Tren de Arágua, os demais devem poder voltar voluntariamente, não forçados. Ela diz articular com aliados republicanos uma alternativa.

Neste mesmo sentido, a reportagem a questiona sobre a decisão de participar, por vídeo, de um recente evento da ultradireita na Europa, apelidado de Patriotas, em celebração à volta de Trump ao poder. A maioria dos líderes ali presentes é ferrenhamente anti-imigração.

María Corina responde que a urgência impera e que este não é o momento de escolher plateias. “Preciso de todas as audiências, não apenas de meus amigos mais próximos ou com os quais tenho contato.

Preciso que todos entendam o que está acontecendo na Venezuela e por que isso deve ser uma prioridade global. E estarei em todos os espaços que me sejam oferecidos. Farei isso com a cabeça erguida e com orgulho.”

PONTOS-CHAVE
Por que há cinco asilados na embaixada argentina em Caracas?
O regime mandou prendê-los e os acusou de delitos que incluem traição à pátria por chefiarem a campanha opositora; o governo de Javier Milei lhes deu asilo na embaixada em março de 2024


Quem são eles?
Pedro Urruchurtu (articulador de política externa da campanha de María Corina), Magalli Meda (chefe de campanha), Claudia Macero (coordenadora de comunicação), Humberto Villalobos (coordenador eleitoral) e Omar González (coordenador político)


Por que o Brasil cuida da sede diplomática? Em 1º de agosto, a despeito dos conflitos entre os presidentes Lula e Javier Milei, os países acordaram que o Brasil assumiria a tutela da embaixada após a Venezuela romper relações com a Argentina e expulsar os diplomatas argentinos do país; não há diplomatas brasileiros na residência

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