Por que o Oscar de filme internacional, dado ao país, tem peso histórico diferente

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O Oscar de melhor filme internacional é um prêmio peculiar no evento mais badalado de Hollywood. Ao contrário das outras categorias, a estatueta celebra os países indicados, não os realizadores. Tanto que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas só passou a reconhecer os diretores que recebem a honraria em 2014 -até então, eles recebiam o troféu como representantes nacionais e nem tinham o nome gravado na estatueta.

A definição da categoria explica também porque ela tem tanto significado para alguns dos países que o disputam, como o Brasil. O Oscar internacional consagra um filme e a produção de seu país, o que toca no orgulho da população. Assim, se Walter Salles é quem sobe ao palco no domingo (2) caso “Ainda Estou Aqui” vença o prêmio, o triunfo é considerado brasileiro.

A história recente reúne alguns casos emblemáticos desta relação mais específica do evento com o resto do mundo, especialmente entre as nações que não têm tradição na disputa.

Em 2006, a vitória de “Infância Roubada” no prêmio deu o que falar na África do Sul, país que o filme representava. Uma semana depois da cerimônia, a equipe do longa foi recepcionada no país com uma parada, desfilando por Joanesburgo em um ônibus, e foi convidada a visitar o ex-presidente Nelson Mandela.

Tudo porque o longa se tornara a primeira produção sul-africana a levar a estatueta, além do primeiro filme africano não falado em francês a triunfar no Oscar.

O peso da história não passa batido aos realizadores que acabam donos destas estatuetas. O diretor Denys Arcand, que venceu o primeiro Oscar do Canadá na categoria em 2004 por “As Invasões Bárbaras”, já afirmou que ficou com medo de perder a categoria por conta da reação de seus compatriotas.

“Quando você está em melhor filme estrangeiro, não é só a sua mãe que você pode decepcionar, é o país inteiro”, disse ao Toronto Globe and Mail em 2023. “É um prêmio que nós queremos vencer com todo mundo porque o filme é parte de todos nós.”

Mesmo os países que já levaram várias vezes a estatueta ora ou outra renovam o seu orgulho diante de um novo triunfo na categoria. Em 2022, a indicação de “Drive My Car” ao prêmio de melhor filme e a sua vitória em filme internacional despertou uma onda de entusiasmo no Japão. No dia seguinte ao evento, o secretário chefe do gabinete do governo, Hirokazu Matsuno, disse em coletiva que a vitória era uma conquista histórica para o país -mesmo que esta fosse a quinta vez que um filme japonês vencesse o prêmio.

Em Hiroshima, enquanto isso, réplicas das pegadas do protagonista do longa, Hidetoshi Nishijima, foram instaladas no estacionamento do Centro Comunitário de Yasu, aonde parte das gravações aconteceram.

O viés político do Oscar também aparece na história do prêmio internacional. Em 2018, a vitória do chileno “Uma Mulher Fantástica”, o primeiro filme do país a receber o troféu, impulsionou a votação de um projeto de lei que permitia a mudança de sexo em documentos oficiais. O longa de Sebastián Lelio tinha uma protagonista trans, vivida pela atriz Daniela Vega, que vivia um arco de discriminação na história por sua identidade de gênero.

A presidente Michelle Bachelet, então prestes a sair do cargo, aproveitou a visita da equipe do filme em virtude do prêmio para pressionar o Congresso sob a votação. “Foi uma oportunidade de acelerar as coisas”, disse o ministro da cultura Ernesto Ottone ao The Atlantic na época.

“Nós não podíamos perder o momento, nem a necessidade de debater isso hoje, agora, depois do Oscar.”

O Brasil passa por algo parecido com a indicação ao Oscar de “Ainda Estou Aqui”. Na semana passada, a procuradora da República Eugênia Gonzaga disse que o sucesso do filme com Fernanda Torres ajudou o trabalho da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP). A comissão foi recriada pelo atual governo e busca solucionar casos de desaparecidos políticos como o de Rubens Paiva, personagem no longa.

“É óbvio que isso ajudou a alavancar o trabalho da comissão, porque agora todo mundo já ouviu falar”, disse à Folha. “[O filme] fala de retificação de certidões de óbito, [dizem], ‘ah, eu vi a cena’ [em que Eunice recebe a certidão de Rubens Paiva]. As pessoas já entendem com muito mais facilidade do que a gente está falando.”

Nem todo país fica feliz com a vitória em filme internacional, porém. Em 2015, alguns setores da Polônia receberam mal a indicação e a vitória de “Ida”, o primeiro longa do país a ganhar a estatueta. A Liga Polonesa Anti-Difamação chamou a produção de “anti-polonesa” por associar a responsabilidade do Holocausto à nação, reunindo mais de 50 mil assinaturas em um abaixo-assinado pedindo para o filme incluir um aviso sobre a questão.

Outro país que recebeu mal o prêmio foi o Irã. Em 2012, o governo cancelou uma cerimônia do Centro de Diretores e o Alto Conselho de Produtores do Cinema Iraniano para parabenizar o diretor Asghar Farhadi pelo Oscar de “A Separação”. As autoridades não deram motivo na época para proibir o evento, que celebraria o primeiro triunfo do país na categoria.

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