Carnaval já teve polêmicas, censura e nudez; relembre os momentos mais icônicos da Sapucaí

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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)

Inaugurado em março de 1984, o Sambódromo da Marquês de Sapucaí coleciona momentos históricos que permanecem na memória do público. Ao longo desses 41 anos, acontecimentos marcantes, personagens inesquecíveis e algumas polêmicas fizeram parte do espetáculo famoso no mundo inteiro. Relembre alguns deles abaixo.

MOMENTOS ICÔNICOS DAS ETERNAS MUSAS

Elas mostraram além da beleza, muito samba no pé, algo em extinção atualmente. A lista de beldades é longa: Adele Fátima, Monique Evans, Luiza Brunet, Luma de Oliveira, Valeria Valenssa, são alguns exemplos.

A estreia de Evans no Carnaval ocorreu em 1984 e ela logo se tornou um símbolo do evento carioca; mas em 1991, ela surpreendeu ao surgir sambando na avenida grávida de sua filha, Bárbara Evans, no desfile da São Clemente. Ela foi rainha de bateria por vários anos em quatro escolas.

A ex-modelo Luma de Oliveira encantou o público no Carnaval da Tradição de 1998 ao sambar usando uma gargantilha com o nome “Eike”, em referência a seu marido na época. Os holofotes foram todos para ela. Seu último desfile foi na Portela em 2009, mas o adereço no pescoço há 27 anos ainda é lembrado.

Luiza Brunet se destacou no sambódromo desde 1986. Em 2023, na Portela, ela deixou as plumas e paetês de lado e ostentou um figurino mais discreto em prol de uma causa nobre: exibiu um sinal vermelho na mão, símbolo da campanha contra a violência doméstica.

ENCONTROS NOTÁVEIS E HOMENAGEADOS PODEROSOS

Em 1992, a Beija-Flor conseguiu a proeza de reunir no mesmo carro alegórico as três apresentadoras infantis mais famosas do país: Xuxa, Mara Maravilha e Angélica. Procurada pela reportagem, Mara rememorou o momento único.

“Foi espetacular, o saudoso Joãosinho Trinta [1933-2011] era um querido, sempre muito educado e talentoso”, disse. Perguntada sobre as lembranças daquela ocasião, a baiana descreveu: “As pessoas acenando, torcendo pela escola, lembro desse dia com alegria e gratidão, mas hoje não curto mais o Carnaval.”

Figuras conhecidas da mídia televisiva não somente desfilaram, como também serviram de inspiração para os sambas-enredo. A Unidos do Cabuçu fez uma homenagem em 1991 a Adolfo Bloch (1908-1995), dono da extinta TV Manchete (1983-1999) com o enredo “Aconteceu, Virou Manchete”. Contudo, Bloch não foi a primeira opção, Jô Soares (1938-2022) seria o homenageado, mas, com a sua desistência em desfilar, a escola decidiu mudar o tema poucos meses antes.

Outro homenageado da comunicação foi Silvio Santos (1930-2024), dessa vez pela Tradição, em 2001. O dono do SBT não apenas desfilou, como também acompanhou de perto a pré-produção, visitando o barracão da escola, muitas vezes de madrugada. Até o ex-diretor de programação da Globo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, também foi reverenciado em 2014 pela Beija-Flor, no enredo sobre a história da comunicação.

O CARNAVAL INESQUECÍVEL DOS ARTISTAS

Dentre tantos carnavais lendários, a reportagem perguntou para alguns famosos qual desfile havia sido o mais marcante para eles. A apresentadora Nani Venâncio mencionou, “quando a Mocidade em 1989 fez uma homenagem a Elis Regina. Eu estava no bolo que representava os casamentos dela”.

Apaixonada por Carnaval, ela tem boas recordações: “Ia a todos os bailes, blocos, fui rainha do Gala Gay e até jurada de baile de fantasia de luxo”. Entre os anos 1980 e meados de 1990, a “mulher-onça” da abertura da primeira versão de “Pantanal” foi destaque em várias agremiações, além de rainha de bateria da Unidos da Ponte. A beldade também estampou a capa do LP “Samba, Suor e Ouriço”, de 1987.

Para a atriz Isadora Ribeiro, um desfile inesquecível foi o da Beija-Flor em 2018 (“Monstro É Aquele que Não Sabe Amar os Filhos Abandonados da Pátria que os Pariu”). “Esse ficou marcado pra mim por unir arte, protesto e emoção, com alegorias grandiosas, fantasias expressivas e uma comissão de frente emocionante”, contou ao F5. Quanto ao mais belo, ela destacou o desfile da Vila Isabel em 2013: “Me encantou pela riqueza de detalhes, o enredo contagiante e a estética impecável”.

Sem titubear, Monique Evans apontou como inesquecível o desfile da Mocidade em 1985, “Ziriguidum 2001 – Carnaval nas Estrelas”. “Estava na frente da bateria, nós ganhamos, acho que foi o Carnaval mais importante da escola, foi maravilhoso” contou à reportagem por telefone.

Presença constante na avenida, a ex-topmodel e empresária Magda Cotrofe apontou dois momentos que a impressionaram: “A Vila Isabel em 2009 foi de arrepiar, com Paulo Barros inovando, e o outro foi a Juliana Paes na Viradouro (2019), quando a bateria abriu para ela passar”.

O ator Marcelo Picchi, citou como seu preferido o desfile de 2018 da Unidos da Tijuca em homenagem ao ator e autor Miguel Falabella. “Foi muito emocionante, estava fazendo ‘Pé na Cova’ e tinha o carro do seriado”, comentou. Picchi falou sobre sua longa experiência carnavalesca: “Já desfilei em quase todas as escolas, uma vez levei quatro fantasias, e fui desfilar no mesmo dia em quatro”, recorda-se.

A atriz Vera Gimenez indicou como marcante a sua estreia na Sapucaí na Beija-Flor em 1981, embora a maioria dos desfiles dela tenha sido na Grande Rio. “Éramos eu e mais seis meninas no carro abre-alas Jardins Suspenso da Babilônia, a seis metros de altura”, lembrou.

TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA (E LEMBRADA)

O nu sempre fez parte do carnaval carioca, a artista plástica Enoli Lara foi a precursora ao desfilar no carro alegórico da União da Ilha usando somente um véu em 1989. A audácia repercutiu e a Liga Independente das Escolas de Samba proibiu no ano seguinte a “genitália desnuda”.

Entretanto, em 1990, o ator Jorge Lafond (1952-2003) escandalizou ao desfilar pela Beija-Flor usando uma sútil penugem sobre o pênis. Com a nova regra proibindo a nudez, a escola fez uma crítica no enredo daquele ano: “Todo Mundo Nasceu Nu”.

A punição só aconteceu dois anos depois, com a perda de dois pontos após o ator Torez Bandeira desfilar usando só purpurina no genital. Após o evento, ele alegou que o tapa sexo havia caído na avenida.

Tema do samba-enredo da Viradouro em 1991, a atriz e humorista Dercy Gonçalves (1907-2008) veio no carro alegórico com os seios a mostra aos 84 anos, sendo ovacionada pelo público.

CELEBRIDADES INTERNACIONAIS

A rainha do pop Madonna veio conferir o Carnaval em 2010 com o então namorado Jesus Luz. No mesmo camarote, estava o humorista Evandro Santo que lembrou como foi o momento. “Gritei três vezes ‘Madonna’… Aí pensei: ‘já vi, deixa ela curtir'”, relatou.

Muito antes da construção do sambódromo, o galã hollywoodiano Rock Hudson (1925-1985) caiu no samba carioca duas vezes. Em 1958, o astro foi ciceroneado na cidade pela atriz Ilka Soares (1932-2022) e, numa ocasião, até usou uma faixa escrita “Princesa do Carnaval”. Embora fosse gay, ele não era assumido. O ator retornou em 1973 e curtiu novamente a folia no Baile do Copa e nos ensaios na quadra de samba.

Em 1978, foi a vez do então príncipe Charles pousar no Carnaval daqui. Ele bem que tentou sambar, mas não tinha talento. Mas a aparição mais controversa foi da cantora e atriz jamaicana Grace Jones em 1996. Convidada por um camarote de cerveja, ela estava mais interessada no namorado mais jovem, sem se importar com o desfile.

POLÊMICAS E CENSURA NA AVENIDA

A censura no Carnaval não foi unicamente com a nudez dos foliões. A Beija-Flor com o enredo “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia”, foi alvo de uma restrição em 1989, devido a uma escultura do Cristo Redentor vestindo farrapos.

O pedido partiu da Arquidiocese do Rio sob alegação de uso de símbolos religiosos em “festas profanas”. Em sinal de protesto, a alegoria foi coberta com um plástico preto e uma faixa com os dizeres: “Mesmo proibido, olhai por nós!”. O público aclamou o desfile, mas os jurados nem tanto, e a escola não levou o título.

Luiza Brunet nomeou esse desfile como um dos mais memoráveis. “Joãosinho Trinta conseguiu trazer um novo olhar para o Carnaval, lugar de certa forma também de manifestação. Ele continua sendo uma grande figura do Carnaval brasileiro”, disse ao F5. Nani Venâncio compartilha da mesma opinião. “Foi muito marcante o desfile, aquele protesto, estava nele como passista”, lembra.

O enredo, idealizado pelo saudoso carnavalesco, era uma crítica social, em uma das alas tinha foliões como mendigos, prostitutas, transexuais e outras representações. A restrição gerou uma repercussão positiva para a agremiação, que entrou para a história do Carnaval.

A modelo Lilian Ramos não era uma figura conhecida do Carnaval, mas foi alçada à fama mundial em 1994, ao curtir a folia sem calcinha ao lado do então presidente Itamar Franco (1930-2011). A foto foi a polêmica do ano, sendo capa dos principais jornais e revistas. Ramos soube aproveitar a popularidade, fechou vários contratos na Europa e, desde 1995, vive na Itália.

E O CARNAVAL DE 2025?

Questionados se cairão na folia carioca este ano, a maioria das pessoas consultadas para este texto não havia decidido ainda, enquanto outros passarão em casa. É o caso de Nani Venâncio, que está se recuperando de uma cirurgia no pé.

Isadora Ribeiro pretende assistir aos desfiles no camarote com as filhas Maria e Valentine; enquanto Magda Cotrofe tem acompanhado mais nos bastidores. “Faz tempo que não desfilo, sempre me perguntam isso, acho que vou pendurar as sandálias (risos), mas sempre vou aos bailes e camarotes”, disse.

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