Calor recorde faz consumo de energia atingir picos históricos

A onda de calor que atinge o Brasil desde o início de fevereiro tem provocado recordes consecutivos de demanda de energia ao longo do dia. Só nesta semana, o País registou três picos históricos, segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), órgão que coordena a operação de usinas e linhas de transmissão no País.

A demanda vêm numa escalada desde o dia 10 de fevereiro e se intensificou nesta semana com temperaturas acima de 30º. Na segunda-feira, 24, o consumo instantâneo alcançou 105.037 MWmédios; na terça, 25, subiu para 105.924 MWmédios; e na quarta, 26, para 106.644 MWmédios. Esse volume representa uma alta entre 19% e 24% em relação ao verificado em igual período do ano passado, quando a carga máxima de energia foi de 95.547.

Segundo o ONS, os picos de consumo instantâneo ocorrem entre 14h e 16h, período em que as temperaturas atingem seus níveis mais altos. Esse aumento de calor intensifica o uso de equipamentos de refrigeração, impulsionando a demanda por energia em residências, comércios e indústrias.

Mesmo assim, diz o operador, “o sistema nacional tem atendido plenamente à crescente demanda de carga”, com segurança. “O comportamento da carga está dentro do esperado e daquilo que foi mapeado nos estudos de planejamento. Não há risco ao atendimento da demanda no Brasil em razão dos sucessivos recordes registrados no país.”

Especialistas em energia explicam que, do ponto de vista energético, de fato o risco é baixo. Ou seja, o Brasil tem capacidade “de sobra” para atender a demanda, diz o coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), Nivalde de Castro. Segundo ele, a carga média está em torno de 100 mil MW enquanto a capacidade do País é de mais de 200 mil MW.

Mas, segundo a presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoun, no setor elétrico o risco nunca é zero. Sempre há a possibilidade de uma “perturbação”, como aquele provocado pelo próprio calor ou problema em algum equipamento. “Desde a época do racionamento, aprendemos que nunca podemos dizer que não há risco de apagão no Brasil, mesmo num sistema robusto como o nosso.”

Apesar de a demanda instantânea ter chegado a recorde, isso, em tese, não geraria uma situação crítica. “Mas é claro que, quanto mais carregado o sistema está, mais vulnerável ele fica, porque as operações vão ser realizadas numa situação mais crítica”, afirma Paulo Cunha, pesquisador da FGV Energia.

O CEO da consultoria Thymos Energia, João Carlos Mello, concorda. Segundo ele, embora não haja problemas de falta de energia para abastecer o mercado, a operação do sistema elétrico está mais complexa, sobretudo com a entrada de algumas energias renováveis. As usinas solares, diz ele, jogam uma quantidade enorme de energia no sistema durante o dia, que simplesmente desaparecem ao anoitecer. Isso exige um planejamento mais apurado da operação para evitar apagões.

Na operação de ontem, por exemplo, as solares começaram o dia com 1.283 MW, às 6h04, atingiu 36.163 MW, às 11h38, e caiu para 682 MW, às 18h20, num movimento normal.

Há outro fator que torna a operação do sistema ainda mais complexo, diz o analista do UBS BB, Giuliano Ajeje. Segundo ele, há uma dificuldade operacional histórica no Brasil, dado que a geração de energia renovável está longe dos centros de carga. No sistema brasileiro, uma parte relevante é abastecida por energia solar durante o dia, mas essa energia é produzida em grande parte no Nordeste e consumida, sobretudo, no Sudeste.

“A gente colocou muita energia solar (no sistema), e a geração dela cai muito rápido”, diz ele. “Para a gente ficar com o sistema de maior segurança, o que estamos tendo de fazer, em vários momentos do dia, é cortar parte da geração solar e eólica e gerar mais hídrica e térmica, principalmente a térmica. Isso vai fazer com que o preço da energia fique mais caro”, afirma Ajeje. “No futuro, o que vamos precisar é ter mais térmicas.”

Outros fatores
A crescente demanda por energia registrada nos últimos dias também levanta preocupações de longo prazo. Especialistas questionam se esse aumento indica uma mudança estrutural, impulsionada pela crise climática, com potencial para transformar hábitos de consumo. “A verdadeira preocupação não é o registro em si, mas sua frequência acelerada, indicando uma possível transformação no perfil de carga da rede”, alerta Giuliano Ajeje, em relatório do dia 24 de fevereiro.

Ele tem razão. Um exemplo claro dessa mudança é a popularização do ar-condicionado, que deixou de ser um item de luxo para se tornar cada vez mais acessível. Em 2024, a produção desses aparelhos no Brasil atingiu um recorde, com 5,88 milhões de unidades fabricadas na Zona Franca de Manaus — um aumento de 38% em relação ao ano anterior, segundo a Eletros, associação que representa os fabricantes de eletroeletrônicos. Esse crescimento reflete uma mudança nos hábitos da população brasileira, impulsionada pelas temperaturas cada vez mais elevadas.

Outro fator que pode estar mudando o patamar de consumo são os novos modelos de trabalho, com mais gente em home office. Isso significa ficar mais tempo em casa com aparelhos eletroeletrônicos ligados.

Segundo especialistas, esse aumento na demanda de energia exige um planejamento estratégico para evitar que o País seja pego desprevenido. Essa preparação deve incluir tanto medidas de curto prazo, para garantir a estabilidade imediata do sistema, quanto ações de longo prazo, visando à adaptação às novas tendências de consumo.

Segundo o relatório do UBS BB, embora o ONS tenha previsto essa trajetória (de carga), a provável piora das condições hidrológicas agora pode representar uma ameaça direta à estabilidade do sistema.

“O enfraquecimento da confiabilidade dos reservatórios hidrelétrica força uma maior dependência da geração térmica, que tem um custo significativamente mais alto, criando um impulso inflacionário para os preços da eletricidade.”

Estadão Conteúdo

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