O teatro como meio de reflexão e resistência em Brasília

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cab brasília 65 anos

Por Larissa Barros
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Brasília, cidade de encontros e contrastes, carrega em sua formação a diversidade de culturas e tradições trazidas por imigrantes de todo o país. Apesar dos desafios e estereótipos que a cercam, a capital tem consolidado sua identidade cultural, com o teatro se destacando como um dos principais meios de reflexão e resistência.

Em uma cidade onde a política é o principal pilar, os espetáculos teatrais surgem como um reflexo das tensões e desigualdades que marcam sua história. A Cia Novos Candangos, com 13 anos de trajetória, tem um repertório permeado por questões políticas e sociais. Peças como Monstros (2019), que discute o impacto das fake news, e Minha Grande Pequena (2024), que aborda a repressão sexual feminina, exemplificam esse compromisso.

O diretor do grupo, Diego de León, ressalta a capacidade do teatro de dialogar diretamente com a realidade da cidade. “Há uma solidão muito peculiar em Brasília, um sentimento de deslocamento que muitas pessoas sentem, e o teatro pode ser um lugar de acolhimento, pertencimento e reflexão. O grande desafio é garantir que as produções cheguem a todos os públicos e que existam mais espaços acessíveis para essa troca acontecer”, pontua.

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Foto: Arquivo Público do DF

O crescimento do teatro independente

Nos últimos anos, Brasília tem visto um crescimento significativo do teatro alternativo. Muitos grupos e artistas investem em produções fora do circuito comercial, explorando temas diversos e experimentando novas linguagens. Essa cena independente tem papel fundamental na democratização cultural, tornando o teatro mais acessível e diverso.

No entanto, a falta de financiamento, apoio institucional e espaços para apresentações ainda são desafios constantes para esses grupos. Sem incentivo, muitos recorrem a rifas, vaquinhas e parcerias para viabilizar suas produções. Tuanny Araujo, do grupo Embaraça, um coletivo de teatro negro, fala sobre as dificuldades: “A falta de espaços para ensaios e apresentações nos obriga a buscar estratégias para nos mantermos ativos. Os agentes culturais travam uma batalha diária para garantir que o teatro continue vivo em Brasília”.

Apesar das adversidades, a necessidade de adaptação impulsiona a criatividade, levando os artistas a experimentarem formatos inovadores, como teatro ao ar livre, intervenções em feiras e performances interativas. Essa proximidade com o público também fortalece a conexão entre artistas e espectadores.

Gustavo Haeser, do grupo Tripé, reflete sobre a contradição que marca a cena teatral da cidade: “O DF é um celeiro de artistas e coletivos potentes, que criam suas próprias linguagens. No entanto, não existe uma estrutura institucional que cuide do gerenciamento, manutenção, valorização, registro e memória dessa produção”.

O impacto do Teatro Nacional e do Dulcina de Moraes

O Teatro Nacional Cláudio Santoro, fechado por uma década, tornou-se um dos maiores símbolos de resistência da arte candanga. Durante anos, foi palco de grandes produções e eventos culturais. Sua recente reabertura, com a Sala Martins Pena modernizada e acessível, representa não apenas um retorno das atividades, mas um gesto de renovação e fortalecimento da cena teatral local. Segundo a Agência Brasília, a sala agora conta com capacidade ampliada para 480 lugares, incluindo espaços para cadeirantes e pessoas com deficiência visual acompanhadas por cães-guia.

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Ator André Amahro ao lado de Tania Zobar, na Faculdade Dulcina de Moraes. Peça é Senhorita Julia, de August Strindberg, dirigida por Dulcina.

Outro símbolo da cena teatral brasiliense, o Teatro Dulcina de Moraes, se aproxima de seus 45 anos, mantendo-se na memória coletiva mesmo com suas portas atualmente fechadas. Para Zé Regino, formado no teatro, seu fechamento é uma perda imensurável. “Fechar o Dulcina é perder uma referência essencial para a formação teatral da cidade. É uma grande perda para todos que passaram por ali”, lamenta.

Inaugurado em 1980, o Dulcina foi essencial na formação de artistas e na promoção de espetáculos de qualidade. O ator André Amahro, também formado no teatro, destaca sua importância para a movimentação cultural da cidade. “O Dulcina recebeu inúmeros espetáculos, inclusive estrangeiros. Seu fechamento significa impedir o acesso da população à cultura e deixar Brasília sem alma e sem vibração”, critica.

Ao longo das décadas, teatros como o Nacional e o Dulcina foram mais do que espaços de apresentação; tornaram-se formadores de opinião e pontos de encontro artístico. O impacto do fechamento é sentido tanto pelos profissionais do setor quanto pelo público, que perde acesso a uma cena plural e diversa.

Para a Cia Novos Candangos, a reabertura do Teatro Nacional é uma oportunidade única para fortalecer o teatro local. “Que essa reabertura não seja apenas simbólica, mas que traga impactos reais para a cena teatral brasiliense”, destaca o grupo.

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