Coluna Surfe e Medicina, do doutor Guilherme Vieira Lima, aborda questões de prevenção e cuidados básicos de saúde durante temporada de ondas grandes no Havaí.

Mike Ito

[media-credit id=22504 align=”alignnone” width=”2784″][/media-credit] Surfistas e fotógrafos recorrem ao uso de capacete cada vez mais em Pipeline, Havaí.

A associação do surfe com o Havaí é obvia até para os que não surfam. A origem deste esporte ainda é muito debatida, mas indiscutivelmente o arquipélago havaiano é o seu principal berço.

Além disso, o grande responsável por difundi-lo para o mundo, foi o surfista havaiano e também medalhista olímpico de natação, Duke Kahanamoku. Desde então o Havaí é considerado a capital do surfe.

As ondas havaianas merecem respeito. Uma onda perfeita e potente quebrando em cima de uma bancada rasa e afiada de coral, cria um ambiente desafiador até para os mais experientes. Infelizmente, todas as temporadas, temos notícias de lesões muito graves ocorrendo na região.

Este ano tive a oportunidade de me instalar no North Shore da ilha de Oahu durante a janela do Pipe Master. Além de surfar algumas das famosas ondas, vivenciei de perto a rotina dos surfistas (profissionais e amadores), seus familiares e fotógrafos.

Do ponto de vista de saúde podemos debater diversos aspectos. Primeiramente, a sensação de estar numa ilha distante do continente (cerca de 5 horas de avião) pode trazer uma certa insegurança para um turista, mas ao pousar no aeroporto, facilmente observa-se a grandeza do local que deixam os desavisados mais tranquilos.

A ilha de Oahu, possui rede de hotéis, supermercados, lojas, hospitais e toda infra estrutura como qualquer outro estado americano. Dessa forma, quando oriento os pacientes surfistas que vão ao Havaí, a abordagem é bem diferente daqueles que programam uma trip para a Indonésia.

O “kit médico” e o planejamento de evacuação em caso de problema de saúde são mais simples em comparação ao surfe de área remota. Recomendo sempre um seguro de saúde para viagem e algumas medicações específicas.

Para os surfistas, os principais cuidados estão relacionados aos traumas. Durante a minha estadia, fiz cerca de 10 atendimentos a eventos ligados ao mecanismo traumático. Dentre eles, cortes causados pelo contato com a prancha, quilhas e coral, entorses de tornozelo e joelho, e principalmente os traumatismos cranianos. Julgo cada vez mais a importância do uso do capacete, e felizmente, em Pipeline, a adesão vem aumentando.

Outra ocorrência frequente, e agora também inclui os fotógrafos, foram as dores musculares. Essa está relacionada à intensidade e frequência das atividades, com pouca ou má qualidade de repouso.

Não tem dia de descanso para os surfistas e film-makers, mesmo sem grande ondulação, o North Shore apresenta diversas possibilidades de onda e imagem de qualidade. Em 2025, tivemos uma longa espera durante o campeonato, e para não perder o “ritmo físico”, os atletas precisaram fazer atividades físicas complementares durante a espera, colaborando mais para queixas musculares.

Em relação aos familiares, a chegada de um grande swell, além de causar ansiedade aos surfistas, atrapalha o sono de suas mães. Em uma circunstância, atendi uma mãe que estava com a coluna travada, sendo que ela mesma anteriormente já tinha me comentado sobre a preocupação com a filha naquelas ondas.

Certamente, a somatização da preocupação colaborou para a sua contratura muscular lombar. Em um outro momento atendi a filha de um atleta que havia torcido o tornozelo brincando na areia; a mãe da criança e esposa do surfista, mesmo sabendo que o trauma era leve, estava preocupada por estar fora de seu país e às vésperas de uma grande ondulação que faria com que o marido fosse competir e não poder ajudá-la com a criança lesionada.

Como mencionei acima, o estado psicológico e emocional do North Shore está relacionado diretamente à previsão de ondas. Uma grande ondulação é precedida de ansiedade, medo e felicidade acompanhada de uma taquicardia e uma noite de insônia.

Resposta fisiológica normal para qualquer pessoa prestes a encarar um grande desafio. Este estado de alerta é necessário, uma vez, que encarar esse tipo de onda, num local que oferece risco, a atenção é obrigatória.

Para finalizar, quero retratar os bons momentos que tive na ilha, mesmo indo sozinho e deixando esposa e filhos aqui no Brasil, fui muito bem acolhido por todos. Presenciei o campeonato de surfe mais importante do mundo numa condição épica, com os atletas que tenho o privilégio de assistir, performando muito bem. E apesar de muitas ocorrências médicas, nenhuma foi grave.

Juntar a medicina com o surfe, num local mágico e numa condição perfeita, foi a minha dose “medicamentosa” perfeita para começar o ano com a bateria totalmente carregada. Recomendo e prescrevo a todos!

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