Dólar avança a R$ 5,75 em dia de ajustes de olho em quadro fiscal; Ibovespa cai 0,77%

O dólar emendou o terceiro pregão seguido de valorização nesta segunda-feira, 24, e voltou a fechar acima da linha de R$ 5,75 pela primeira vez em cerca de dez dias. Segundo operadores, após o rali recente do real, investidores promoveram ajustes de posições e realizaram lucros no mercado doméstico, apesar do avanço de commodities e de divisas emergentes pares do real, como os pesos mexicano e chileno.

Além do aumento da volatilidade em razão do vaivém das expectativas em torno do anúncio das tarifas recíprocas pela administração Donald Trump em 2 de abril, analistas afirmam que o comportamento do real reflete a volta dos ruídos políticos e fiscais internos, sobretudo após as dúvidas em torno dos números do Orçamento de 2025.

Para a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli, o real sofreu nesta segunda-feira com ajustes e movimentos especulativos provocados por questões internas, como certo desconforto com declarações do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, pela manhã.

“No exterior, houve até uma melhora do apetite ao risco com a perspectiva de tarifas mais baixas. O mercado acabou recebendo mal as falas de Haddad, que na verdade não foram ruins. Vejo o comportamento do câmbio hoje mais como algo especulativo”, afirma Quartaroli.

A divisa chegou a ensaiar uma alta mais forte e registrou máxima a R$ 5,7728 durante apresentação do ministro. Haddad disse que seria “vergonha nenhuma mudar um parâmetro ou outro do arcabouço”, mas pontuou que “não mudaria”, porque está convencido de que o sistema funciona. Foi a senha para interpretações de que o governo poderia alterar metas fiscais.

O ministro reagiu de imediato e, em post na rede social X, disse que distorceram suas palavras. Ele reiterou que está confortável com a estrutura e os parâmetros atuais do arcabouço e que pretende reforçá-los. Houve apenas uma menção à possibilidade de mudança dos parâmetros no futuro, “se as circunstâncias mudarem”

As explicações de Haddad abriram espaço para um alívio do dólar, que passou a operar ao redor de R$ 5,73 ainda no fim da manhã. Ao longo da tarde, a moeda norte-americana ganhou um pouco de força e superou os R$ 5,75, em sintonia com mínimas do Ibovespa.

O dólar fechou o dia cotado a R$ 5,7524, em alta de 0,61%, após ter recuado 0,45% na semana passada. Apesar do avanço nos três últimos pregões, a moeda norte-americana ainda acumula desvalorização de 2,77% em março. No ano, perde 6,92%.

Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis divisa fortes, o índice DXY subiu e voltou a superar os 104,000 pontos, com máxima aos 104,444 pontos. As taxas dos Treasuries aceleraram os ganhos ao longo da segunda etapa de negócios, com o retorno da T-note de 10 anos voltando a superar 4,30%.

À tarde, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) de Atlanta, Raphael Bostic, disse que projetava anteriormente dois cortes de juros pelo Fed neste ano, mas que, diante das incertezas econômicas, passou a prever apenas um corte. Na semana passada, após o encontro de política monetária do BC norte-americano, as projeções da maioria dos dirigentes do Fed, espelhadas no chamado “gráfico de pontos’, eram de duas reduções da taxa básica em 2025.

Trump confirmou à tarde que vai anunciar sobretaxas adicionais nos próximos dias, que devem incluir setores como automóveis, madeira e chips. Ele pontuou, contudo, que pode conceder “várias pausas em tarifas de dIversos países” e que “nem todas as tarifas começarão em 2 de abril”.

O economista-chefe da Frente Corretora, Fabrizio Velloni, destaca que o comportamento errático de Trump adiciona volatilidade aos negócios, com investidores tentando entender se haverá mesmo um tarifaço ou se o presidente dos EUA utiliza ameaças para obter uma posição de vantagem na hora de negociar com os parceiros comerciais.

“Existe essa preocupação de que essas tarifas provoquem desaceleração maior da atividade nos EUA e inflação, impedindo o Fed de cortar juros”, afirma Velloni, ressaltando que o real se beneficiou nas últimas semanas do carry trade elevado e do deslocamento de recursos de países mais afetados pelas tarifas, como o México, para ativos brasileiros.

Ibovespa

O Ibovespa encerrou a segunda-feira, 24, em terreno negativo, tendo acumulado ganhos nas três semanas anteriores, gordura que o fez caminhar em direção contrária à dos índices de Nova York, onde o avanço ficou na faixa de 1,42% (Dow Jones) a 2,27% (Nasdaq) na sessão. Sem quebras nas semanas de março, o índice da B3 recuperou quase 10 mil pontos, de maneira que analistas consideram ser natural uma pausa para ajuste, tendo à frente uma semana de agenda forte no Brasil e no exterior, com novas leituras sobre inflação, também nos EUA, e a ata sobre juros, por aqui.

Assim, mesmo em baixa de 0,77%, aos 131.321,44 pontos no fechamento desta segunda-feira, o Ibovespa ainda acumula ganho de 6,94% em março – o que supera o avanço de 6,54% em agosto passado, quando renovou máxima histórica na casa dos 137 mil pontos.

Se mantiver o desempenho até a próxima segunda-feira, quando o mês chega ao fim, confirmará sua maior alta desde os 12,54% de novembro de 2023.

Moderado, o giro financeiro desta segunda-feira ficou em R$ 18,5 bilhões. Na sessão, oscilou dos 130.991,87 aos 132.424,43 pontos, saindo de abertura aos 132.343,95 pontos. Entre os grandes bancos, Bradesco sustentou alta (ON +1,23%, PN +1,04%) e, no setor metálico, Usiminas (PNA +1,38%) e as ações de Gerdau (PN +0,58%) e Metalúrgica Gerdau (+0,95%) também foram na direção contrária das blue chips.

Vale ON cedeu 0,52% e Petrobras caiu 0,25% na ON e 0,14% na PN – ambas as empresas tendo chegado a acentuar perdas nos respectivos papéis, no meio da tarde, mas limitando o ajuste em direção ao fechamento.

Na ponta perdedora, Embraer (-4,70%), Hapvida (-4,15%) e Rumo (-3,94%). No lado oposto, Brava (+10,19%), CVC (+7,07%) e PetroReconcavo (+1,35%), além de Usiminas.

No período da tarde desta segunda-feira, o presidente do Federal Reserve de Atlanta, Raphael Bostic, disse que antes projetava dois cortes nos juros pelo banco central americano em 2025, mas, diante das incertezas, calcula agora apenas um – o que resultou em acentuação da alta dos rendimentos dos Treasuries na etapa vespertina, em Nova York. No Brasil, a sessão foi marcada por avanço do dólar – em alta de 0,61%, a R$ 5,7524 – e também na curva de juros doméstica.

“Prevaleceu a contramão ante as bolsas de Nova York na sessão, após uma alta ter sido ensaiada no setor metálico da B3 pela manhã, devolvida à tarde – assim como se viu também no setor de petróleo, durante a sessão. A semana traz novas informações importantes, como a ata do Copom, amanhã”, diz Diego Faust, operador de renda variável da Manchester Investimentos. Ele acrescenta que o avanço da curva do DI na sessão ocorreu a despeito de o boletim Focus, divulgado pela manhã, ter trazido alguma acomodação nas estimativas de inflação do mercado.

“Há dificuldade na projeção da agenda de governo no Congresso, como, por exemplo, na isenção de IR para os que ganham até R$ 5 mil por mês, que deve ser votada apenas no segundo semestre, a contragosto do Executivo que esperava votação mais célere”, acrescenta Faust. A questão fiscal torna ainda difícil os movimentos do governo para viabilizar suas iniciativas, observa. “Falas tranquilizadoras da equipe econômica não surtem o efeito esperado quando se vê dificuldade de impor políticas mais austeras.”

“Na pré-abertura, tínhamos dólar em baixa e Bolsa em alta, mas a fala de Haddad trouxe um pouco de ruído para o mercado”, observa Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos, referindo-se a declarações do ministro da Fazenda sobre o arcabouço fiscal durante participação em evento pela manhã em São Paulo.

As declarações foram interpretadas, em certo momento, como uma indicação de que poderia haver alterações de metas ou, no limite, até flexibilizações – o que Fernando Haddad prontamente desmentiu, por rede social, ainda durante a realização do evento, pela manhã.

“Tivemos um dia de realização de lucros normal na Bolsa, sem um gatilho específico, após um avanço semanal forte. Não há ainda clareza sobre direção no momento, com parte dos investidores estrangeiros também realizando, e uma certa retomada nos Estados Unidos. É preciso aguardar os próximos dias para ver se os movimentos de agora são apenas uma realização ou se serão direcionais”, diz Virgílio Lage, especialista da Valor investimentos.

Juros

As taxas dos contratos futuros de Depósito Interfinanceiro (DI) sobem pelo terceiro pregão seguido, influenciadas principalmente por receios com o cenário fiscal brasileiro acumulados ao longo dos últimos dias. Investidores também se posicionam com mais cautela antes da divulgação da ata da mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que será publicada amanhã

Segundo o economista-chefe do Integral Group, Daniel Miraglia, os investidores estão gradualmente dando mais peso ao cenário fiscal na precificação dos ativos diante de iniciativas recentes do governo para recuperar popularidade que ou se apoiam em mais gastos públicos ou têm potencial para aumentar a pressão inflacionária.

“A pauta fiscal vai voltar com uma certa força com a tramitação da redução do Imposto de Renda sobre remunerações abaixo de R$ 5 mil. Existe a possibilidade de passar só a isenção, e não a tributação compensatória de IR, o que levaria a um rombo de R$ 37 bilhões no orçamento”, acrescentou.

O avanço dos juros futuros ocorreu em paralelo a altas nas taxas dos Treasuries, que subiram após rumores de que as próximas tarifas dos Estados Unidos serão menos abrangentes do que o esperado – fator que aumentou o apetite por risco e estimulou as vendas destes papéis. Miraglia, porém, ressaltou que no Brasil o mercado foi na direção oposta, de aversão ao risco, com queda do Ibovespa e alta do dólar, o que sugere maior influência de fatores domésticos nos juros.

Vitor Oliveira, sócio da One Investimentos, aponta que mais cedo houve confusão em relação a declarações do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a respeito do arcabouço fiscal, e que isso também contribuiu para dar força aos juros futuros.

“No início ficou um mal entendido em relação a uma fala dele, de que gosta do arcabouço, mas que poderia haver mudanças de parâmetros no futuro. Trouxe um certo risco”, disse Oliveira. Posteriormente, Haddad reforçou que estava “confortável” com os parâmetros do arcabouço e que defendia preservá-los por meio de medidas que incluam despesas públicas no limite de gastos.

Para além do cenário fiscal, os investidores se preparam para a divulgação da ata do Copom amanhã. Segundo Miraglia, a linguagem usada pelas autoridades no documento precisa vir mais inclinada a um aperto monetário – mais hawkish, no jargão do mercado – para evitar que o receio com o quadro fiscal resulte em mais aumento do prêmio de risco na curva de juros.

A taxa do contrato de DI para janeiro de 2026 subiu a 15,030%, de 14,955% no ajuste anterior. A taxa para janeiro de 2027 aumentou a 14,920%, de 14,767%, e a taxa para janeiro de 2029 avançou a 14,720%, de 14,533%.

Estadão conteúdo

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