‘A Falecida’ será encenada na CAIXA Cultural

Politicamente incorreto, mas eternamente genial, o dramaturgo pernambucano Nelson Rodrigues (1912-1980) continua dando as cartas quando o assunto é a hipocrisia nas relações humanas, sobretudo as periféricas.E é exatamente sua primeira tragédia carioca, a peça de teatro A Falecida, agora protagonizada por Camila Morgado (novela Renascer), que estreia em Salvador nesta quinta-feira (27), às 20h, na CAIXA Cultural (rua Carlos Gomes), e fica em cartaz até domingo (30).Sempre foi um desejo de Camila atuar em uma peça de Nelson Rodrigues. “Me experimentar como atriz falando aquelas palavras, com aquela pontuação e poder entender um pouco mais deste universo tão profundo, psicológico, forte e primitivo”, pontua a artista.Na trama, uma mulher frustrada do subúrbio carioca acredita-se moribunda por causa da tuberculose, então torna a morte seu maior desejo e arquiteta um funeral luxuoso como forma de compensar uma vida de privações. Isto a torna o centro das atenções e das intrigas familiares.“A morte e o fanatismo religioso são temas centrais dessa dramaturgia, que na sua profundeza está falando de carência, abandono, costumes, de relações, falta de perspectivas, desilusão e do Brasil”, detalha a atriz.Idealizada e dirigida por Sérgio Módena, a peça traz ainda no elenco Thelmo Fernandes, Stela Freitas, Gustavo Wabner, Alcemar Vieira, Claudio Gabriel e Alan Ribeiro. E mesmo escrita há 72 anos, revela força e atualidade em um país ainda regido pela falsa moralidade e pela hipocrisia.MediocridadePara Sérgio, esta obra de 1953 continua extremamente atual. “Está além de apenas um registro histórico comportamental, pois funciona como uma radiografia da miséria humana, de suas paixões e desejos mais profundos. Nelson deu voz a uma camada social marginalizada e com poucas perspectivas de redenção. Além disso, o texto denuncia a falsa moral e o fanatismo religioso”, resume.Na peça, a suburbana Zulmira, casada com Tuninho, um apostador desempregado, começa a causar inveja em sua prima e vizinha Glorinha, com quem, apesar de não falar mais, mantém uma relação inexplicável de competição. Ela acaba transformando a prima em sua maior rival e símbolo da culpa, da vingança e de todos os motivos que contribuem para sua inquietação.Camila acredita que A Falecida fala principalmente do apagamento feminino dentro de uma sociedade construída pelos homens e para os homens. “Zulmira mostra o quanto o fundamentalismo religioso pode se tornar uma obsessão, uma tentativa de salvamento, uma idealização de um mundo melhor e sem culpa. É uma personagem dilacerada, mas que não renuncia à sua dignidade. Na religião, busca talvez um rumo, um amparo. Na morte, a redenção”.Considerada uma heroína trágica, a protagonista é alguém que precisa ser escutada, ter voz e relevância em uma sociedade que não a enxerga. “Ela é, sem dúvida, um dos personagens femininos mais complexos de Nelson porque transita por diferentes temperaturas como raiva, obsessão, inveja, amor, desejo e ódio. Enxerga no luxo do seu enterro uma oportunidade de ter um holofote sobre si, como se finalmente aparecesse a chance de ser olhada, admirada e reverenciada”.Já Thelmo, que vive o marido apaixonado, diz que seu Tuninho é um homem malsucedido e com grande dificuldade de se comunicar com a mulher. “Isso vai trazendo para ele uma enorme frustração, aliada ao fato de estar desempregado. Sua válvula de escape acaba sendo o futebol, Tuninho é um vascaíno apaixonado”, confidencia o ator.Também no elenco, Stela Freitas vive duas personagens: a cartomante e a mãe de Zulmira. Ela diz que a leitora de cartas é o gatilho para toda a obsessão da frustrada esposa suburbana com relação à sua prima Glorinha.“Ela é trambiqueira, malandra e abusa da credibilidade alheia. Já a mãe é religiosa, veio de uma família de posses e hoje está na pindaíba. Tenta manter a família e não entende que a filha está realmente doente. Mas na morte faz o que pode para honrar os desejos da filha”, informa Stela.AtemporalidadeMesmo naquela época, Nelson já apontava a hipocrisia presente em nossa sociedade. Além disso, ele sempre abordou o conservadorismo, algo que não mudou muito desde então.Questões como o machismo e a desigualdade social também estão presentes na peça. Estamos lidando com um casal que não consegue escapar de sua realidade medíocre e opressora, e parece nunca poder ascender socialmente.Para Camila, Zulmira é uma mulher atormentada pela culpa, e é por isso que ela decide buscar na morte uma solução. A atriz também considera importante ressaltar que a busca religiosa fanática da personagem representa a necessidade de conformidade com as normas, bem como simboliza a sexualidade reprimida que se torna o núcleo central da culpa enfrentada por ela.Em sua primeira direção de uma obra de Nelson, Sérgio conta que se preocupou em criar uma encenação atemporal para uma peça escrita na década de 1950 e passada no subúrbio do Rio de Janeiro.Ele diz que o dramaturgo vai além da crônica carioca e radiografa a miséria da alma humana presente nos mais diversos lugares e épocas. E que, apesar de trágica, a montagem também flerta com o cômico.“De certa forma, busquei a atemporalidade estética, pois os conflitos abordados na peça transcendem qualquer contexto histórico. Estou mais interessado em sintetizar simbolicamente o desejo de Zulmira pela morte, esse fascínio quase fetichista que, em última instância, é o seu modo de se vingar de uma vida carregada de frustrações. Há luz e sombras, fantasmagoria, sonho, delírios e, claro, a irreverência e o humor de Nelson”.Sérgio lembra ainda que o velho clichê ‘Nelson Rodrigues é nosso Shakespeare’ segue sendo a mais pura verdade. “Assim como o bardo inglês, Nelson consegue revelar o que há de mais profundo na alma humana. Está além das convenções sociais e estéticas de sua época. Foi um revolucionário tanto na forma como no tema”.E mesmo admitindo que o dramaturgo teve posturas duvidosas ao longo da vida, como, por exemplo, não ter se posicionado conta a ditadura militar, reconhece que é a obra dele que interessa.“Através dela, Nelson escancarou a falsa moral da família brasileira, a hipocrisia dos religiosos e dos ‘cidadãos de bem’, além da permissividade de nossa sociedade. Foi um subversivo, eu diria”, finaliza o diretor.A Falecida / 27, 28, 29 e 30 de março / quinta a sábado às 20h, e domingo às 19h/ Caixa Cultural (Rua Carlos Gomes, 57) / R$ 15 (meia) e R$ 30 (inteira) / Venda pelo Sympla. *Radiografia subversiva.
Adicionar aos favoritos o Link permanente.