Marginalizado pela crítica, Lugar Público, de José Agrippino de Paula, é um livro mítico

Carlos Willian Leite

Especial para o Jornal Opção

Oitavo livro lido em 2025, “Lugar Público” (Papagaio, 269 páginas), de José Agrippino de Paula.

Existem livros que se tornam míticos, mesmo sem a consagração crítica. Obras que circulam de mão em mão, de sebo em sebo, até se tornarem cult.

“Lugar Público” (1965), do escritor paulista José Agrippino de Paula e Silva (1937-2007), é exatamente isto: um livro marginalizado pela crítica por quase meio século, mas que sobreviveu como um artefato raro da literatura experimental brasileira. Um texto que desafia convenções, dissolve fronteiras narrativas e transforma o caos urbano em um espetáculo de fragmentos.

O romance — ou anti-romance — traz uma narrativa cinematográfica, quase um storyboard literário, no qual as cenas se encadeiam como flashes desconexos da vida na cidade.

O livro retrata a alienação do homem moderno, compondo um quebra-cabeça urbano onde personagens surgem, desaparecem e reaparecem, sem identidade fixa. Não há protagonistas nem uma trama linear. Em vez disso, o leitor se vê imerso em um turbilhão de figuras anônimas — burocratas, artistas de rua, comerciantes, vigias, gays, muitos gays — transitando por cenários urbanos que os reduzem a meros vultos na multidão. Nada parece autêntico. As interações são breves, artificiais, marcadas pelo deslocamento e pela frieza dos espaços públicos.

A linguagem é seca, visual, por vezes desconexa. Agrippino alterna descrições minimalistas com cortes abruptos, criando um ritmo de estranhamento que desafia o leitor a preencher as lacunas. O texto parece se transformar em um organismo vivo, um roteiro de instantes capturados e descartados na mesma intensidade, um experimento narrativo onde a cidade é tanto o cenário quanto o protagonista.

Página após página, a sensação de anonimato e despersonalização se intensifica, culminando em um desfecho sem resoluções — um labirinto urbano onde cada personagem se dissolve na paisagem, engolido pelo ritmo impiedoso da cidade. Não há catarse, apenas a constatação de que, nesse cenário, existir é ser descartável. A metrópole não observa, não acolhe, não responde. Ela consome, esvazia e segue adiante, indiferente a quem fica pelo caminho.

Nota: 9,5

Carlos Willian Leite, poeta, jornalista e editor da “Revista Bula”, é colaborador do Jornal Opção.

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