Ícaro de Souza, 11 anos, tem muito a ensinar ao deputado Gustavo Gayer

“Vamos criar mais faculdades, vamos criar mais instituições de ensino para formar mais imbecis.” Esta frase (infeliz até não ter mais jeito) é do deputado federal goiano Gustavo Gayer, que “fala demais por não ter nada a dizer”. Sua oquidão se encaixa na expressão popular “miolo de pote”. No pote, pelo menos se pode enchê-lo com a água, que é elemento essencial à vida de todas as espécies; já a cabeça vazia, ela pode ser mal habitada. O diabo sabe bem disso. Na verdade, todos nós às vezes incorremos numa frase infeliz, porém os que transitam no quintal da sensatez são capazes de reconhecer a infelicidade de suas palavras e até pedir perdão.

Essa característica maledicente no deputado tem sido sua marca registrada. Fato que não é de causar estranheza. Só ocorrerá estranheza mesmo quando ele fizer uma manifestação de crítica aos seus opositores guiada pela razoabilidade, pela circunspecção. Fato que nele só vejo possível quando nascer dente em galinha. Impropérios fazem parte de sua postura parlamentar. A sua mais recente estupidez ocorreu no dia 14 de março deste ano. Numa postagem no X (antigo Twitter), disse que lhe “veio a imagem” da ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, o deputado federal petista Lindberg (namorado da ministra) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

Gayer poderia seguir o conselho do 16º presidente americano, Abraham Lincoln, que recomendou o silêncio, o qual, segundo ele, desperta apenas a suspeita da idiotice, enquanto que abrir a boca pode confirmar a suspeita. Lincoln, por ter proclamado a abolição do trabalho escravo, acabou sendo assassinado por um ex-conferado, que também acabou sendo morto doze dias depois. Sempre existem (e estamos assistindo a isso) aqueles que querem resolver tudo na bala, no golpe, no “dançou, mané”, daí a necessidade de um estado forte e ardoroso cumpridor da democracia para impor o cumprimento da lei e assim não deixar a democracia ser jogada na lata de lixo.

Abraham Lincoln, por ter proclamado a abolição do trabalho escravo, foi assassinado em 14/4/1865 por um conferado, que também acabou sendo morto doze dias depois | Foto: Reprodução

Sobre o garoto Ícaro de Souza, ele tem 11 anos e é aluno da Escola Municipal Professora Marília Carneiro Azevedo Dias. Ele e outros alunos estavam num evento de plantio de árvores numa área do Jardim Guanabara onde antes vivia entupida de lixo e até animais mortos. O local era horroroso, triste de se ver, porém as árvores plantadas pelos estudantes, que estavam acompanhados por três professores, deram uma cara nova para o lugar com as 120 árvores plantadas. Para um garoto de 11 anos, Ícaro falou pouco e disse muito. Sobre a importância das árvores, destacou que elas “melhoram a vida das pessoas, melhoram o meio ambiente e têm um papel essencial na nossa vida”.

Ícaro desmente as palavras do deputado Gustavo Gayer, pois ele, que ainda está no sexto ano do ensino fundamental, já demonstra ter conhecimento sobre a importância das árvores. Ele, no evento promovido pela Agência Municipal de Meio de Ambiente e a Secretaria Municipal de Educação, na semana passada, plantou duas árvores: um xixazeiro e um cajá-manga. Há muitos marmanjos cuja imbecilidade não lhes permite saber o que Ícaro já sabe e pratica. Esse conhecimento veio da escola em que estuda. E isso joga por terra as palavras ocas do deputado sobre o fato de as faculdades gerarem imbecis. Os professores de Ícaro, afinal, não da escuridão da caverna de Platão, mas sim de instituições de ensino.

Tive o prazer de conversar com Ícaro durante o plantio das árvores. Não creio que ele irá voar muito próximo do sol como fez seu xará da mitologia grega, em desobediência à orientação do pai, Dédalo. Pela sua bagagem de conhecimento, o Ícaro real não usará asas com penas coladas com cera. Voará de avião. A imbecilidade de que fala o parlamentar não o atingirá, haja vista que, já tão novo, sabe que “as árvores melhoram a vida das pessoas”.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

Local no Jardim Guanabara antes do plantio de 120 mudas de árvores: era ponto descarte de lixo | Foto: Cléber Gonçalves dos Santos
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