Fióti avisou Emicida antes de sacar R$ 2 milhões da empresa, mostra email

MAURÍCIO MEIRELES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Em um email de 20 de janeiro deste ano, Fióti avisou a Emicida que faria uma retirada de lucros do Laboratório Fantasma, principal empresa dos dois, no valor de R$ 2 milhões. Extratos bancários da conta da empresa mostram retiradas exatamente nesse valor.

Os documentos estão no processo que corre na 2ª Vara Empresarial e Conflitos de Arbitragem de São Paulo e, até terça-feira (1º), quando a reportagem os acessou, continuavam públicos. As informações parecem contradizer a versão do rapper de que o irmão teria sacado dinheiro da empresa sem avisá-lo.

Procurado pela reportagem, Fióti disse, por meio de sua assessoria, que as demais transferências, feitas em 2024, num total de R$ 4 milhões, foram autorizadas em uma reunião com o gerente financeiro da empresa e todos os sócios -o que inclui Emicida. Segundo o empresário musical, a reunião foi documentada em vídeo.

Emicida acusa Fióti de retirar R$ 6 milhões do Laboratório Fantasma sem autorização. Os dois tinham firmado um acordo no fim do ano passado para fazer a cisão da sociedade, mas o combinado começou a degringolar quando, em janeiro, o rapper diz ter identificado a primeira transferência bancária feita pelo irmão.

Depois disso, resolveu fazer uma pesquisa nos extratos e localizou outras, desde junho do ano passado, que somam os R$ 6 milhões que o rapper acusa o empresário musical de desviar. Fióti diz que as acusações são infundadas e que só retirou lucros a que tinha direito –tudo com conhecimento do irmão.

“Formalizo neste email que tenho lucros a serem retirados das empresas e preciso honrar compromissos firmados em meu nome, logo vou avançar com a distribuição de lucros a partir de amanhã, no valor de R$ 2 milhões”, escreve Fióti no email. “Valor inferior a que tenho direito nestes mais de 16 anos como sócio das empresas e administrador das mesmas.”

Os extratos bancários no processo mostram retiradas para Emicida que somam R$ 1,6 milhão entre junho de 2024 e o começo de fevereiro deste ano.

Procurado, o rapper não respondeu até a publicação desta reportagem. Mas, no processo, seus advogados chegam a dizer que Emicida não costuma acessar o email para o qual Fióti escreveu. Sobre a alegação de que valores foram transferidos também para o rapper, falam que os repasses feitos ao músico fazem “parte do montante que lhe é devido enquanto artista, ainda que sob a rubrica contábil de distribuição desproporcional de lucros”.

Ao identificar as retiradas, o músico anulou uma procuração que dava a Fióti poderes de gestão na sociedade, barrando o acesso do irmão às contas do Laboratório Fantasma. Foi então que o caso, que corre na esfera cível, parou na Justiça, levado por Fióti.

O empresário musical pede, entre outros pontos, para ter o acesso aos recursos da empresa restabelecido. Na quarta-feira (2), a Justiça negou o pedido de liminar dele para acessar as contas novamente.

O rompimento dos irmãos veio a público quando Emicida anunciou nas redes que Fióti não representava mais os interesses de sua carreira, no dia 28 de março.

Mas os atritos da dupla vêm de antes. No fim de 2024, os dois chegaram a um acordo para realizar a separação da sociedade, num processo que deveria durar entre três e seis meses. A ideia era inclusive nomear um executivo para dirigir provisoriamente as operações do Laboratório Fantasma.

A empresa, aliás, é um conjunto de empresas. Na principal delas, Emicida tem o controle de 90% do capital, contra 10% de Fióti; numa outra, dedicada à marca de roupas de mesmo nome, é exclusivamente do empresário. Mas a defesa do irmão mais novo argumenta que, apesar da divisão societária formal, o objetivo do grupo de empresas sempre foi realizar uma divisão de lucros igualitária entre os dois.

No dia 12 de março, o músico enviou uma mensagem a colaboradores avisando que o irmão estava fora da gestão da empresa. No dia seguinte, Fióti convocou uma reunião com todos e contou sua versão sobre o afastamento, criticando a decisão do rapper.

No dia 27, foi a vez de Emicida chamar os colaboradores para explicar as divergências entre os dois e o afastamento de Fióti. No dia seguinte, esses funcionários mandaram mensagens em um canal anônimo que a empresa tem para sugestões. Segundo o relato deles, os irmãos tiveram um desentendimento público nessa ocasião -e Emicida encerrou o encontro, deu as costas e saiu.

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