Pagamento de CDBs do Banco Master depende da venda de ativos, dizem analistas

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JÚLIA MOURA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Para honrar seus compromissos até o fim do ano, entre eles R$ 5,356 bilhões em CDBs (Certificados de Depósito Bancário), o Banco Master teria que vender grande parte dos seus ativos, dizem analistas.

Segundo seu último balanço, no total o banco tem R$ 16 bilhões de vencimentos até o fim de 2024. Para arcar com essas despesas, o Master conta com o dinheiro que deve vir do pagamento de empréstimos concedidos, estimados em R$ 7,6 bilhões pela instituição, e R$ 6,1 bilhões em títulos e valores mobiliários do banco, que precisariam ser vendidos no mercado. Ou seja, é um fluxo incerto.

“A maioria dos bancos deixa os recursos voltados ao pagamento de obrigações em títulos públicos. Chama a atenção que o Master tenha pouco título público e muito Fidc (Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios) e fundos multimercado”, diz Luis Miguel Santacreu, gerente de análise da Austin Rating.

Fidcs são fundos que negociam créditos -recebíveis de empresas, precatórios ou até mesmo processos judiciais em andamento.

Segundo o balanço do banco referente a 2024, são menos de R$ 200 milhões em títulos do Tesouro Nacional e R$ 3 bilhões em Fidcs, R$ 3,5 milhões em multimercados e R$ 568 milhões em fundos de ações a serem negociados em até 12 meses. Não há, porém, descrição de quais fundos são esses nem em quais ativos eles investem, de modo a averiguar o potencial de liquidez.

A KPMG, que auditou a demonstração financeira, destacou no balanço que a determinação dos valores de mercado dos ativos investidos está sujeita a um nível maior de incerteza.

“Consideramos a mensuração a valor de mercado dos fundos de investimentos como um principal assunto para a nossa auditoria, devido à relevância dos montantes e às incertezas envolvidas na determinação do risco de crédito e da realização futura dos ativos investidos pelos fundos”, escreveram os auditores.

Outro caminho para que o banco arque com os seus compromissos poderia ser captar mais recursos no mercado, via CDBs e CDIs (Certificados de Depósito Interbancário), que são uma espécie de CDB entre bancos.

O banco tem emitido neste ano mais CDBs no mercado, a taxas menores que as que tornaram este produto do Master famoso, na casa dos 130% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário), mas ainda atrativas.

O CDB pós-fixado de um ano está sendo ofertado a 107% do CDI e o de dois anos, a 111%. Já no CDB prefixado com prazo de 30 dias corridos a taxa está a 13,9% ao ano. No de 60 dias, 14,1%, e no de 90 dias, a 14,2%.

No entanto, caso aumente muito a captação, especialmente emprestando a clientes de perfil mais arriscado, o banco terá que aumentar seu capital, para não ficar de fora da regulação prudencial do Banco Central.

Caso aumente os ativos sem aumentar seu patrimônio, há risco de a instituição ficar de fora do Índice de Basileia. Esse é uma das principais regras para o funcionamento de instituições financeiras, calculado a partir da divisão do patrimônio pelos ativos de risco, de modo a verificar a capacidade de solvência.

O Banco Central exige que instituições do tamanho do Master tenham um índice de 10,5%. O banco terminou 2024 com 11,51%. Caso fique abaixo desse patamar, o Banco Central pode intervir na instituição, para que aumente seu patrimônio, ou para que venda seus ativos.

“O Índice de Basileia está bem abaixo dos outros bancos pequenos e médios, e até abaixo dos grandes bancos”, diz Rafael Felipe Schiozer, professor de finanças da FGV-EAESP.

Para aumentar o patrimônio, o banco pode ter uma injeção de capital de seus sócios ou vender parte dos ativos, como tem feito recentemente.

No ano passado, o Master vendeu parte da sua carteira de crédito consignado e agora negocia a venda de sua carteira de precatórios (títulos públicos judiciais), de R$ 8,7 bilhões.

O BTG Pactual é um dos cotados para levar esta carteira. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o chairman e sócio sênior do BTG, André Esteves, ofereceu cerca de R$ 3 bilhões por ela.

Esta parte do Master não está entre as que o BRB (Banco de Brasília) quer adquirir. Na última sexta (28), o banco do Distrito Federal anunciou acordo para a aquisição de 58% das ações do Master. O valor exato da operação não foi revelado, mas o negócio gira em torno de R$ 2 bilhões, segundo pessoas a par da operação.

A compra depende da aprovação do Banco Central e do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), e está sendo investigada pelo Ministério Público do DF, que irá apurar as circunstâncias da compra e venda de ações na operação.

“Se o BRB recuar, ficará complicado para o Master. A fotografia do balanço é que ele é um banco com restrições de crescimento e muito a pagar”, diz Santacreu.

Procurado, o Banco Master disse que irá honrar com seus compromissos.

“O balanço demonstra, de forma clara e objetiva, que o banco possui recebíveis de ativos suficientes para cobrir integralmente os passivos de curto, médio e longo prazos -mesmo sem considerar novas captações”, afirmou a instituição por meio de sua assessoria.

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