Mais do que uma trend: Conheça a história do Studio Ghibli

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A não ser que você viva em uma caverna, provavelmente já sabe que uma nova atualização do ChatGPT criou uma trend que dominou completamente as redes sociais nos últimos dias: as famigeradas “artes no estilo Ghibli”.

Claro, trends do tipo já haviam acontecido outras vezes, como o “estilo Pixar”, mas dessa vez o impacto foi muito maior e o debate também, especialmente pelo fato do Studio Ghibli ser extremamente artístico, prezando a arte manual. Hayao Miyazaki, fundador do estúdio, já chegou a declarar que considera as IAs “um insulto à vida”.

Bem, polêmicas à parte, talvez exista um lado bom nisso tudo, que é o de levar mais pessoas às magníficas obras do Studio Ghibli. Pensando nisso, falaremos sobre sua história e trajetória.

Como o Studio Ghibli começou?

Reprodução/Studio Ghibli

O Studio Ghibli foi fundado em 1985 pelos diretores Hayao Miyazaki e Isao Takahata, juntamente com o produtor Toshio Suzuki. No entanto, a relação entre Miyazaki e Takahata começou muito antes disso.Os dois trabalharam juntos pela primeira vez em 1964, marcando o início de uma colaboração que perduraria por toda a carreira de ambos.

Até 1984, eles participaram da produção de diversos filmes e séries japonesas, mas foi Nausicaä do Vale do Vento, o primeiro longa-metragem original dirigido por Miyazaki, que se tornou um grande sucesso de crítica e bilheteria. A maioria dos filmes Ghibli foi escrito, desenhado e dirigido por Miyazaki, que ganhou destaque como o principal animador do estúdio. O filme era uma aventura de fantasia pós-apocalíptica baseada em um mangá de mesmo nome publicado por Miyazaki.

Embora Nausicaä não seja oficialmente um filme do Studio Ghibli, ele já exibe características marcantes do estilo de Miyazaki, como uma forte mensagem ambiental e uma protagonista feminina determinada, elementos que se tornariam recorrentes em sua obra, possivelmente é um hábito adotado por inspiração na sua mãe. Ele valoriza a independência e progresso das mulheres, optando por criar personagens que lideram suas próprias jornadas sem depender de um príncipe encantado. Toshio Suzuki também esteve envolvido na produção do filme e, empolgados com seu sucesso, ele e Miyazaki decidiram fundar seu próprio estúdio, convidando Takahata para se juntar a eles.

O financiamento veio da Tokuma Shoten, uma editora sediada em Tóquio, dando início a uma trajetória que resultaria na produção de 24 longas-metragens e consolidaria o Ghibli como um dos mais renomados estúdios de animação do mundo.

Mas afinal, o que é um Ghibli?

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Reprodução/Studio Ghibli

O nome Ghibli foi escolhido por Hayao Miyazaki. O nome do estúdio pode ser traduzido como “O Quente Vento do Deserto do Saara“, uma metáfora poética que representa o novo vento soprando sobre a indústria de animação. Embora essa escolha pudesse parecer um tanto ambiciosa, não demorou para que o Studio Ghibli cumprisse sua promessa, revolucionando não apenas o mundo da animação, mas também a indústria cinematográfica como um todo.

O primeiro filme do estúdio, “O Castelo no Céu”, foi lançado em 1986 e se tornou a animação de maior bilheteria no Japão naquele ano. O longa já apresentava elementos que definiriam o estilo de Miyazaki, como sua fascinação pela mecânica do voo e o uso do realismo mágico. Essa influência remonta à infância do diretor, cujo pai era engenheiro aeronáutico e administrava o negócio da família, a Miyazaki Airlines. Esse fascínio permeia grande parte de sua obra, e “O Castelo no Céu” é um dos exemplos mais claros, com boa parte da trama se desenrolando nos ares e envolvendo dirigíveis e engenhocas voadoras.

Do fracasso comercial ao status de cult

Em 1988, o Studio Ghibli lançou dois filmes simultaneamente: Túmulo dos Vagalumes, dirigido por Isao Takahata, e Meu Amigo Totoro, de Hayao Miyazaki.

Essa decisão foi tomada para fortalecer a saúde financeira do estúdio, mas, na época, Meu Amigo Totoro acabou sendo um fracasso comercial. No entanto, os produtos licenciados do filme tiveram um ótimo desempenho nas vendas, por isso o personagem virou o centro da marca Ghibli. Com o tempo, o longa conquistou o público e se tornou um clássico cult, sendo hoje um dos filmes mais queridos do estúdio.

No ano seguinte, o estúdio alcançou uma grande conquista. Depois de adquirir os direitos para adaptar o romance O Serviço de Entregas da Kiki, a produção enfrentou vários desafios até que o filme fosse lançado em julho de 1989. Com belíssimos cenários pintados à mão, O Serviço de Entregas da Kiki reforça uma das marcas registradas do Studio Ghibli: uma protagonista feminina forte em uma jornada de amadurecimento. O longa foi um enorme sucesso e se tornou o filme de maior bilheteria no Japão em 1989.

Conquistando o mundo

Durante a década de 1990, o Studio Ghibli continuou lançando filmes de sucesso no Japão, como Porco Rosso e Sussurros do Coração. No entanto, a popularidade do estúdio ainda era majoritariamente doméstica.

Isso mudou com Princesa Mononoke. Ambientado no final do Período Muromachi, o filme explorou os conflitos entre progresso humano e as forças da natureza, além de trazer discussões sobre deficiência e sexualidade. A capacidade do Studio Ghibli de tratar temas profundos de maneira acessível para todas as idades se tornou um de seus maiores diferenciais.

Miyazaki também inovou tecnicamente em Princesa Mononoke, empregando animação digital, renderização 3D, mapeamento de texturas e composição digital. No entanto, apenas 10% do filme feito no computador, os 90% restantes foram feitos inteiramente à mão pelo próprio Miyazaki. Além disso, o filme contou com 144 mil desenhos, e o diretor corrigiu mais de 80 mil durante a produção.

O filme foi a produção mais cara do estúdio até então, mas o investimento valeu a pena. Lançado em 1997, Princesa Mononoke foi um sucesso estrondoso de bilheteria, tornando-se o filme de maior arrecadação da história do Japão até 2001, quando foi superado por A Viagem de Chihiro, outro longa do Studio Ghibli. A Viagem de Chihiro ganhou vários prêmios, incluindo o Oscar de 2003, na categoria “Melhor Animação”. 

Além do sucesso comercial, Princesa Mononoke recebeu aclamação crítica, vencendo o Prêmio da Academia Japonesa de Filme do Ano, sendo a primeira animação a conquistar essa honraria. Em 1999, o longa foi lançado nos Estados Unidos pela Miramax, mas teve um desempenho fraco nos cinemas. No entanto, as vendas de VHS e DVD foram expressivas, consolidando o primeiro grande passo do Studio Ghibli no cenário internacional.

Sem cortes!

Embora Princesa Mononoke tenha sido um sucesso moderado na América do Norte, ele provou que os filmes do Studio Ghibli podiam conquistar o público internacional e abriu portas para o futuro. No entanto, se não fosse pela forte convicção do estúdio, as coisas teriam dado errado.

Nos anos 1980, Nausicaä do Vale do Vento foi relançado nos Estados Unidos sob o título Warriors of the Wind. Além da mudança de nome, o filme sofreu cortes massivos para ser vendido como uma animação infantil de aventura. No total, 22 minutos de cenas foram removidos, comprometendo a narrativa e alterando a caracterização de alguns personagens. Como resposta a esse desastre, Miyazaki adotou uma política rígida de “nenhum corte” para todas as futuras adaptações de seus filmes.

Na época do lançamento de Princesa Mononoke nos EUA, o então chefe da Miramax, Harvey Weinstein, queria editar o filme para torná-lo, em sua visão, mais “comercializável” para o público americano. O produtor Toshio Suzuki não aceitou a proposta e enviou a Weinstein uma katana autêntica com um recado direto: “No cuts” (Sem cortes). O Studio Ghibli manteve sua posição, e nenhuma edição foi feita.

Em uma entrevista Miyazaki falou: “Na verdade, meu produtor fez isso. Fui a Nova York para conhecer este homem, este Harvey Weinstein, e fui bombardeado com este ataque agressivo, todas estas exigências de cortes. Eu o derrotei.”

Indo além

Se Princesa Mononoke trouxe o sucesso internacional do Studio Ghibli, A Viagem de Chihiro foi além. Miyazaki concebeu o filme pensando em garotas de 10 anos, com o objetivo de retratar o que elas realmente valorizam, em vez de se concentrar em romances superficiais ou paixões passageiras. Mais uma vez, ele colocou uma protagonista feminina forte no centro da história, criando uma personagem com a qual as meninas poderiam se identificar e admirar. A animação computadorizada foi utilizada para complementar o visual do filme, mas sem comprometer a essência da narrativa e da arte tradicional.

Ao contrário da maioria dos filmes do Studio Ghibli, A Viagem de Chihiro foi desenvolvido sem um roteiro. Miyazaki afirmou em uma entrevista que não tem tempo para escrever o roteiro já que ele tem que fazer muitas outras coisas como desenhar e dirigir o projeto todo. Ele disse em uma entrevista que: “Não tenho a história finalizada e pronta quando começamos a trabalhar em um filme.”

Lançado no Japão em julho de 2001, A Viagem de Chihiro foi um sucesso estrondoso. Tornou-se o filme japonês de maior bilheteria da história, um título que manteve por 19 anos. Assim como Princesa Mononoke, venceu o Prêmio da Academia Japonesa de Melhor Filme, mas seu impacto global foi ainda maior. O longa conquistou o Oscar de Melhor Animação — sendo o único anime desenhado à mão e em língua não inglesa a alcançar tal feito — e levou o Urso de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Considerado um dos melhores filmes de animação de todos os tempos e uma das grandes obras cinematográficas do século XXI, A Viagem de Chihiro consolidou o Studio Ghibli como um dos estúdios mais importantes do mundo e reafirmou Miyazaki como um mestre da arte de contar histórias.

Qual o Futuro do Studio Ghibli?

Nos anos seguintes, o Studio Ghibli continuou produzindo filmes bem-sucedidos e aclamados, como O Castelo Animado, Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar e Vidas ao Vento. Baseado nos contos de Diana Wynne JonesO Castelo Animado virou um dos filmes mais amados do Studio Ghibli. Hayao Miyazaki conseguiu levar a fantasia do clássico conto britânico a sua própria forma de pensar, criando assim mais uma animação marcante para a história do seu estúdio.

A empresa também passou por diversas mudanças, incluindo fusões, acordos com a Disney e, mais recentemente, a chegada de seu catálogo a várias plataformas de streaming. Essa decisão foi um marco por dois motivos. Primeiro, porque o estúdio sempre relutou em aderir ao streaming, acreditando que os cinemas deveriam ser a prioridade. Segundo, porque isso permitiu que uma nova geração de fãs mergulhasse no rico e encantador universo do Ghibli, com seus filmes agora disponíveis em serviços como Netflix e Max.

Após a aposentadoria de Hayao Miyazaki em 2014, o estúdio entrou em um hiato temporário. No entanto, a aposentadoria não durou muito tempo. Em 2017, Miyazaki saiu da aposentadoria para anunciar que estava dirigindo mais um longa-metragem, O Menino e a Garça. Ele afirmou que este seria seu último filme, mas será? Mais do que nunca, precisamos de um mestre como Hayao Miyazaki.

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