A nova velha

Quero ser velha. Bem velha. E não quero ser aquela velha com cara e corpinho de novinha. Quero ser velha com a cara que tenho e o corpo que tenho. Quero ser apenas uma velha. Uma mulher velha. Com minhas rugas e marcas e seus cabelos grisalhos. Mas com ideias brilhantes e capacidade criativa. Quero ser velha com meu corpo cansado mas ativo e saudável. Quero ser uma mulher velha respeitada. Que seja olhada com desejo: quero ser como ela! Não quero ter medo de ser velha. Pois o medo de ser velha vem do preconceito. Quero ter o direito de envelhecer sem medo. Sem ser excluída. Sem ser ignorada. Quero ser uma velha valorizada pelos meus conhecimentos, pelo aprendizado que acumulei e pela possibilidade de compartilhar com outras pessoas tudo o que vivi e aprendi. Quero ter a liberdade de ser velha e não quero ter aparência de nova porque assim não seria velha. Não quero que me coloquem um rótulo. Porque preconceito dos outros, muitas vezes, nos leva a um sentimento de inadequação em relação à idade e aparência. Quando ouço alguém dizer que não aparento ter a idade que tenho, penso: qual a aparência que a pessoa na minha idade deveria ter? E assim vamos criando rótulos estéticos e a crença de que ninguém deve envelhecer e muito menos aparentar que está envelhecendo. Parecer velho virou quase um crime! Obviamente não estou falando sobre ser saudável e ativo. Estou falando sobre rótulos e aparência. Daí chegamos ao conceito de “nova velha”. Mas o que é ser a “nova velha”? É uma velha com aparência de nova? Precisamos refletir sobre isso. Quando eu era jovem, as mulheres de 60 anos se comportavam de maneira diferente das de hoje. Eram outros tempos. Mas, apesar das diferenças, hoje as mulheres velhas continuam sendo tão excluídas e ignoradas quanto no passado. Isso explica, em parte, o maior cuidado com a aparência que essas mulheres têm tido. Temos medo de parecer velhas. Na nossa sociedade estruturalmente machista e misógina as mulheres já vivem excluídas de muitas coisas em qualquer idade. Inclusive do direito a envelhecer. E é preciso quebrar mais esse preconceito. Por isso digo: quero ser velha! Velha como na música de Rita Lee. “Um dia morro bem velha e na hora H quando a bomba estourar, quero ver da janela, entrar no pacote de camarote”. Ser velho é uma dádiva. Pela lei brasileira, a pessoa é considerada idosa a partir dos 60 anos de idade. Já para a Organização Mundial da Saúde, a velhice chega a partir dos 65. Com o aumento da expectativa de vida da população – podemos alcançar até os 90 anos, em média – essa etapa da vida pode ser muito longa (para quem tiver sorte). Por isso afirmo: quero ser a “nova velha”. Aquela que não tem medo de envelhecer. Aquela que não quer retardar o tempo. A que quer viver! Não eternamente, mas o quanto puder!*Jornalista, diretora da ATCom – Comunicação Corporativa
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