Studio Ghibli: especialistas defendem uso de IA para ‘reduzir custos’

A recente onda de imagens inspiradas na estética do Studio Ghibli, geradas por inteligência artificial, trouxe à tona discussões acaloradas sobre direitos autorais, ética e o futuro da animação. A nova funcionalidade da plataforma OpenAI, que permite criar ilustrações no estilo do icônico estúdio japonês, foi celebrada por muitos, mas também gerou críticas pela apropriação sem autorização do traço e da identidade visual de uma obra consagrada.O debate é amplo e envolve diferentes perspectivas. Para o animador soteropolitano Marco Ademar, a inteligência artificial pode, sim, substituir certas funções dentro da indústria, mas também abre novas possibilidades. “Animação tem um custo elevado e é demorado. Os estúdios buscam reduzir custos e agilizar a produção. O cinema não é apenas arte; tem um lado industrial ”, argumenta o criador e diretor da série ‘Pixcodelics’, do Cartoon Network.

Ao mesmo tempo que certos profissionais podem perder espaço, outros vão surgir

Marco Ademar

Inteligência artificial gera as imagens em segundos

|  Foto: Reprodução/ChatGPT

O baiano Bruno Zambelli, artista digital e especialista em IA, compartilha uma visão semelhante. Para ele, a tecnologia já estava presente no meio artístico, mas agora está mais acessível. “Essa ferramenta já existia, mas quando chegou no ChatGPT, democratizou o uso”, analisa.

O problema é que qualquer pessoa comum pode replicar a autoralidade de um estúdio ou artista pagando uma mensalidade. Isso assusta a classe artística, mas também abre espaço para novos criadores e pequenas produções

Bruno Zambelli

O futuro da arte digital parece caminhar para um cenário de adaptações e transformações. Enquanto alguns profissionais encaram a inteligência artificial como uma oportunidade de evolução, outros temem que sua expansão comprometa a originalidade e os direitos dos artistas.No caso do cineasta e diretor de ‘Arca de Noé’, Sérgio Machado, a preocupação surge com o uso indiscriminado da tecnologia. “Me parece muito perigoso e invasivo. Como você se apropria do desenho, do estilo de alguém e cria uma trend na internet? Tudo isso levanta questões de direito autoral e também de substituição de profissionais por máquinas. Parece coisa de ficção científica”, alerta o soteropolitano.

Internautas reproduziram memes com estética do Studio Ghibli

|  Foto: Reprodução/ChatGPT

Apesar de sua defesa do uso da IA, Marco Ademar também critica a forma como a OpenAI utilizou a estética do Studio Ghibli sem consentimento. “O erro foi a apropriação descarada sem falar com eles”, pondera.

O Estúdio Ghibli deveria ter sido remunerado, pois está sendo usado como propaganda. Mas também não sou ingênuo de achar que estilos não são copiados. A questão é o uso comercial sem acordo

Marco Ademar

Zambelli acrescenta que o verdadeiro beneficiário dessas polêmicas são as grandes empresas de tecnologia. “A OpenAI mirou no extremo oposto da IA para gerar estatística, engajamento e visibilidade”. 

Trend Ghibli

|  Foto: Reprodução/ChatGPT

Quem está ganhando com isso são as corporações. A questão não é se a IA é boa ou ruim, mas como é utilizada e quem se beneficia mais dela

Bruno Zambelli

Linha tênue entre inspiração e apropriaçãoO uso de inteligência artificial na criação de imagens no estilo do Studio Ghibli levanta um embate jurídico. Segundo Rodrigo Moraes, professor da UFBA e especialista em Direito Autoral, a IA generativa pode ferir direitos autorais ao reproduzir obras sem autorização, podendo configurar plágio ou reprodução desautorizada. Ele explica que, embora estilos artísticos não sejam protegidos por lei, as obras intelectuais resultantes desses estilos são resguardadas.“O Direito Autoral não protege estilos, mas obras intelectuais. Se houvesse proteção de estilos musicais, haveria o risco de um totalitarismo cultural. João Gilberto, por exemplo, foi o genial inventor de um novo estilo de cantar e tocar violão, que influenciou muita gente. Mas João não poderia cobrar direitos autorais pelo uso de seu “estilo” de cantar baixinho e fazer uma batida sincopada no violão”.O Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que estilos não são passíveis de proteção, apenas as obras derivadas deles. No entanto, o especialista ressalta que, no caso do Studio Ghibli, o impacto vai além da estética, pois a IA pode “desvirtuar os ideais pacifistas do estúdio e de Hayao Miyazaki”.No Brasil, a discussão avança com o Projeto de Lei 2.338/2023, que propõe remuneração aos criadores cujas obras forem utilizadas para treinar IA. Moraes defende essa regulamentação e critica o argumento das big techs de que isso prejudicaria a inovação. Para ele, o avanço da IA deve respeitar os direitos dos criadores, garantindo que seu trabalho não seja explorado sem compensação.*Sob supervisão de Bianca Carneiro

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